quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A GENTE SE ACOSTUMA


(Texto por Marina Colassanti)

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida!!

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Conclusões

- Entendi porque as pessoas gostam de dizer "olá mundo" e "boa noite" no Twitter. Mas continuo não fazendo isso.

- Entendi porque uma pessoa dá motivos propositalmente pra alguém se irritar com ela, quando na verdade se gostam. Mas continuo sem ver graça nisso.

- Entendi porque estar na hora certa no lugar certo não é simplesmente sorte. Mas continuo no lugar errado.

- Entendi porque teclamos a mesma tecla mesmo sabendo que ela vai fazer a mesma coisa e o resultado é o mesmo. E teclo teclas novas, através das teclas antigas.

- Entendi porque cada vez mais as gerações são mais intolerantes com o mundo ao seu redor. Daí continuo me achando velho demais pro meu tempo.

E sigo calmo, alheio ao turbilhão de pensamentos, sentimentos, sensações, vozes, revoltas e etc que definem o mundo ao meu redor. Acho que sou tolerante demais, mas também não vejo mais "brilho" em nada.

Sabe porque as agendas foram trocadas pelos blogs, que foram substituídos por twitter, tumblr e formspring? Simples, ninguém quer ouvir, só ser ouvido. Mesmo não tendo mais do que 140 caracteres de conteúdo.

Passar bem, 2010.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Pense sobre isso.

"Se você sempre achar que é imposível transformar alguma coisa, nunca vai se esforçar o suficiente para mudá-la."

terça-feira, 15 de junho de 2010

e eu sinto que já não demora.
mas logo vou embora.

e quantos terão apenas uma memória de algo abandonado para lembrar?
talvez todos.
e mais uma vez, peço desculpas por eu precisar disso, mas é mais forte que eu.

porque logo vou embora
e sei que não demora.

sábado, 29 de maio de 2010

♪ In a world that gives you nothing...

as músicas deveriam ser compostas a partir da melodia. e que ela fosse rica.
e às vezes um acorde diz mais que dezenas de estrofes.
e deveríamos saber que, sendo assim, uma música nem sempre necessitará de letra.
assim é minha mente: uma melodia que toca inconstante constantemente.

as melodias são compostas, sempre.
as letras podem ser de amor ou de guerra, de felicidade ou angústia, mas... e sua melodia?
incapaz sou eu de traduzir em palavras o que elas significam verdadeiramente.
porém, capaz é, cada um com sensibilidade, de compreender a melodia.

a melodia guarda o real sentimento contido numa música.
e assim deveríamos ser: capazes de expressar o que pensamos.
seja com palavras... ou com atitudes, sem dizer uma só palavra.

"em um mundo que não te dá nada...
...precisamos de algo em quê acreditar"

como isso faz falta a todos nós nessa vida conturbada do século XXI. :(

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Alô, Planeta Terra!

Sabe, estive pensando na possibilidade de eu ser um ET.
Não deve ser possível alguém pensar e agir de forma tão diferente de todo mundo. De achar tanta gente tão cheia de assunto e tão sem-sal.
Acho que por isso eu mais ouço que falo. E se falo, ninguém mais fala, porque minhas frases costumam ter sentido completo, bem como não tenho paciência pra explicar duas vezes uma linha de raciocínio mais complexa, ainda mais se for uma piada. EXISTE COISA MAIS CHATA que explicar piada? E acho que quando me faltam palavras é porque não consigo explicar o que é óbvio. E não, definitivamente não me acho tão inteligente quanto ouço dizerem, só acho que as pessoas são preguiçosas demais até pra pensar, o que considero inadmissível.

Me sinto um ET sempre que vejo a facilidade com que as pessoas interagem, enquanto acho um martírio mental me comunicar com gente nova. Acho um saco as pessoas precisarem de tempo para ter intimidade de tirar um barato da cara do outro. E sabe, quando não encontro palavras, faço a única coisa que faço com louvor: mandar um comentário hilário ou bem engraçado no meio da conversa que até então acompanhava só com os ouvidos. Sabe, interagir é um saco, ainda mais quando no fundo tem interesse, como por exemplo num almoço comercial ou quando você quer ficar com alguém. Como diria John Nash, se a meta é óbvia... pra que tanta palhaçada e lenga-lenga?

Aliás, falando em John Nash, acho engraçado eu ter lembrado dele. Não costumo citar famosos, nem nomes ou trechos de filmes e seriados, considero isso profundamente entendiante. E aqueles seriados americanos onde metade das risadinhas de platéia (gravadas, assim espero) são destinadas a frases supostamente engraçadas, com citações a "celebridades" que você nunca ouviu falar na vida? ALÔ, PLANETA TERRA, vocês deviam ter assistido mais Punky, a Levada da Breca, X-Files, essas coisas... isso sim era seriado! Aliás, baixem isso ao invés desses filmes alternativos chatos, ao invés de Friends, ao invés de filmes de putaria e todas essas tralhas que congestionam o tráfego virtual no mundo. Aliás, alguém me ensina a realmente gostar de ver filme e ler livro?

Outra coisa que acredito ser digna de um ET é não ter heróis. Sabe, nunca quis ser ninguém, nem nunca achei ninguém tão perfeito pra merecer ser vangloriado, invejado ou tomado como exemplo. Nunca quis ser como meu pai, nem nunca achei que preciso me mirar em alguém para conseguir ou não algo. Acredito que a única pessoa capaz de tornar-se um herói pra mim seria eu mesmo... mas pra isso eu precisaria ter e ser tudo o que queria, então eu seria um herói frustrado por não ter pra onde mais escalar. Admita, você provavelmente tem ou já teve um herói.

Sou um ET também por que não acho normal as idiotices que as pessoas inventam adquirir ou passar a fazer. Sabe, também tenho vícios, mas acredito que todo vício precisa trazer algum benefício. Já fui viciado em zilhões jogos "bobos", mas todos me desenvolveram o reflexo e raciocínio. De certa forma eles também foram, muitas vezes, um refúgio de um mundo com tanta gente e coisa broxante e/ou estressante. Apesar disso, tento evitar, porque vício a partir de um certo momento passa a ser apenas maléfico, e se parar com um joguinho às vezes já é tão difícil, imagine coisas mais pesadas que nem preciso mencionar.

Não gosto de ouvir nem ler pessoas pregando patriotismo nem dizendo que odeiam onde vive e que amam a Europa. Adoraria ver um mané desses voltar chorando pro Brasil depois de passar por racismo, de não arrumar emprego decente ou de sentir falta dos pobres mortais que os amam (isso foi tão meigo que quase vomitei). Sabe, essas coisas caracterizam outras duas que não fazem sentido existir e é pura ignorância: xiitismo e inconformismo mimado, respectivamente.

Será que é muito pedir que minha nave venha me visitar às vezes?

quinta-feira, 4 de março de 2010

Desinteressante.

Cheguei à conclusão de que devo ser a pessoa mais desinteressante do mundo.

Sabe, tem vários motivos para parecer desinteressante e o primeiro deles, apesar de ser o mais sutil, é não ser uma dessas pessoas ultra comunicativas que arrumam assunto em TUDO, nem que seja pra falar sobre o jeito de andar da empregada, o histórico de quão ruim bom/ruim foi o café da manhã e todas as 30 notícias da capa de um jornal que não impactam em absolutamente nada na sua vida. Sou silencioso, escuto mais que falo e, PORRA, como tem gente que fala nesse mundo! Que fala muito, alto e com voz irritante!

Outro motivo para ser desinteressante é sempre apontar os defeitos das coisas ao invés de carregar aquela cara idiota de Jim Carrey antes de descobrir que não é tão legal assim ser o Todo Poderoso, dizendo "legaaal" com uma voz babenta pra tudo. Sabe o que acho? As pessoas são iguais demais. E se penso isso até hoje, ou sou ainda muito infantil ou é porque as pessoas realmente são robóticas e apáticas para a maioria das coisas e... iguais demais. Sabe, todo mundo confunde apontar defeitos com revoltinha desnecessária ou stress não menos desnecessário. Eu penso é que se todos pensam assim, é mais uma prova de que realmente são todos iguais, porque até pensam igual. Ou não pensam. Vai saber.

Sou desinteressante por vários motivos. Não gosto de BBB. Não vejo novela, então não vou conversar sobre isso com você no almoço. Como devagar, então não vou conversar com você no almoço (rá!). Não assisto Heroes, nem Lost, nem nunca vi Friends nem nunca senti falta disso. Não almoço com engravatado pra puxar saco. Não assisto filme alternativo chato feito no quintal de europeu. Não falo sobre futebol, nem sei a escalação do banco de reservas do meu time. Aliás, também costumo aloprar torcedor do meu próprio time e, cacete, isso é desinteressante demais! Não vejo copa do mundo, prefiro tocar violão embaixo de uma árvore enquanto o país pára pra ver 22 caras correndo atrás da bola e que, quando conseguem a bola, tentam se livrar dela. Não leio livros, nem os que preciso ler. Quem não lê livro, mesmo que seja Twilight, é infinitamente desinteressante.

Sabe, não tenho hobbies, não tenho vícios de verdade (nem DotA, acredite se quiser), não decoro nomes das pessoas. Não decoro o rosto das pessoas e, antes de fazer a lente e o óculos, achava que era a miopia. Aliás, pessoas que usam lente de contato devem ser desinteressantes. Não gosto de Wii nem jogo pra jogar com a galere, que nem Banco Imobiliário e já esqueci como joga War. Mas War até que era legal, apesar de achar um saco nunca ter terminado uma partida, e maçante.

Não me sinto a vontade com ninguém de imediato. Pode levar meses pra eu conseguir digerir o jeito de ser de alguém, mesmo que se torne um amigão depois. E sabe, como a primeira impressão é a que fica, todos devem achar que a princípio sou antipático e criar uma visão de um cara antipático e, quando você vê, pode até se tornar agradável, mas não pode deixar de ser desinteressante.

Acho que sou desinteressante também pelo desinteresse que tenho em parar as coisas que estou fazendo, até a mais fútil delas, para ouvir outras pessoas ou fazer outras coisas que me pedirem. Se precisar fazer, sempre vou fazer, mas não se impor nessas horas também pode tornar você desinteressante. Aliás, se me ver compenetrado jogando um jogo idiota, tocando violão ou tentando dormir, já adianto que posso até parar pra te ouvir, mas por dentro estarei puto e desejando que um pombo cague na tua cabeça.

Sabe, tudo o que escrevi aí em cima é desinteressante pra c*ralho, como todo mundo que usa palavrão quando as pessoas acham um absurdo você usar termos mais pesados que "seu chato". E cara, não sei nem quero aprender a colocar zilhões de recursos num blog, tô mais que satisfeito em poder postar, comentar e escolher uma cor pro fundo, mesmo que seja preto. Aliás, alinhar o texto à direita, puta que pariu, vai... é desinteressante pra CACETE.

Aliás, a vocês que assim pensam... sinto pena de você por você ser mais uma pessoa desinteressante... pra mim. Porque, me desculpem se algo aí em cima soar arrogante, provavelmente é porque talvez você seja um ser humano bem previsível e talvez o desinteressante seja você. bjosligaproseucachorroqueeunãoqueroqueliguepramim,sefodequieto,sefudeuenãofuieu.

Tá, parei.